A mesma sala do primeiro ato.
Cena I
FIRMINO.
FIRMINO.- (Com o chapéu na cabeça.) Vamos... onde botei eu a minha outra caixa de lancetas? Aqui, não... Ah, cá estão! Pobre rapaz, e pobre mãe! (Abre a gaveta e põe algumas notas do Tesouro na carteira.) Isto basta; com esta soma poderão viver fartos durante a moléstia. Ah! Já me ia esquecendo a pobre velha. Não me falta que fazer.
(Vai saindo.)
Cena II
FIRMINO e CÂNDIDA.
CÂNDIDA.- Aqui está o remédio de minha mana. Anda Vossa Mercê numa dobadoura, e ainda mais agora, que aspira a ser deputado, e há de ser.
FIRMINO.- Dê cá. (Abre o vidro, cheira e entrega a CÂNDIDA.) Uma colher de chá de meia em meia hora; se ela repugnar a tomá-lo simples, misture-o com água morna. Eu já volto, vou aqui ao vizinho.
CÂNDIDA.- Pois onde vai com tanta pressa?
FIRMINO.- Vou sangrar o pobre Geraldo carpinteiro, que está com uma pneumonia famosa, e ver aquele homem da louça, que também está mal.
CÂNDIDA.- Ora, eles não hão de morrer, e demais, não lhe pagam nada. Venha ver Angélica.
FIRMINO.- O perigo destes é grande e importa muito uma hora de tardança. É um filho que sustenta sua mãe, e o outro um pai de nove criancinhas. E, minha amável prima... não devemos ir somente onde os pagam. Eu, por certo, não sou homem de aluguel. Tenho recebido algumas ingratidões, mas o que são elas a par do prazer de ver passearem tantos defuntos na rua?
CÂNDIDA.- Como é que os defuntos passeiam?
FIRMINO.- Por seu próprio pé. O José Daniel, guarda-livros, não é um defunto ressuscitado?
CÂNDIDA.- Percebo agora.
FIRMINO.- E muitos nem o chapéu me tiram.
CÂNDIDA.- E se o mandarem chamar outra vez?
FIRMINO.- Vou, seja a que hora for.
CÂNDIDA.- Pois eu não ia.
FIRMINO.- Porque não podeis apreciar ainda a grandeza, a majestade daquele que é um verdadeiro médico, o cura corporal da sociedade. Ah, sim! Mande entregar este dinheiro... não... aqui tem as chaves da minha carteira e, do dinheiro que achar, mande metade àquela viúva lá da rua do Aljube. Ela já vai escapar, mas a filha ainda não está livre. É pena morrer uma criatura tão bela, tão mimosa e tão engraçadinha.
CÂNDIDA.- Sim! E que idade tem essa moça tão bela, tão graciosa, tão mimosa?
FIRMINO.- Não é uma moça, é uma menina de nove anos e nada mais. Eu volto logo, apesar de ter uma junta...
(Vai-se.)
Cena III
CÂNDIDA e GUSTAVO.
CÂNDIDA.- (Fica muito contente e fecha a porta da sala.) Ora, gora estou só e com as chaves na mão. Quero ver a meu gosto o que está nesta carteira, onde ele guarda os seus segredinhos. Nem sei como me confiou a chave! O que é isto? (Desembrulha.) Um retrato... Olhos azuis, cabelo louro... dá uns ares, de longe, com Angélica, mas ela tem olhos pretos. Entendo, algum pecado velho. E se esta mulher ainda vive? Cartas em francês! Agora estou arrependida de não ter estudado bem, porque havia de as ler todas; assinadas «Adelaide», quantas cartas! (Abre uma gaveta.) Assim mesmo ele ganha muito dinheiro! Quando me casar, hei de pô-lo em regra. Nunca mais há de escrever livros. Não quero que passe as noites em claro, em cima de uma mesa; é melhor dormir sossegado. Proibição total de esmolas, a mulheres principalmente; boa sege, bons passeios, bons bailes, e todos os paquetes ter os últimos figurinos de Paris. Ninguém há de andar mais bem vestida do que eu... Que caderno será este? Despesas... Obras de Alibert, cinqüenta mil-réis. Ora veja, para que mais livros! Meu Deus, quanto dinheiro! Retrato de minha mãe, cem mil-réis; caixilho de ouro e cravação de pedras, 350 mil réis... Ah, é o retrato de minha tia! Por isso não é bom suspeitar mal de ninguém. Não era feia, mas o outro retrato está mais velho e não tem este penteado. Não sei que gosto era aquele de trazerem as cinturas tão em cima, que moda tão indecente! Se eu usasse outra vez este penteado, eu era das primeiras a trazê-lo; acho-o bonito... ora, tudo quanto é moda é bonito. Vamos a tirar o dinheiro que ele mandou... Oh, cá está outra conta! Meu Deus, quanto tem dado! Tudo, tudo dado! Este homem precisa ter quem o guie; gasta dinheiro como água. Ora, ora, nem ele sabe o que tem! Cinqüenta mil-réis para uma mulher! Os ricos nunca dão tais esmolas. Com todos estes desperdícios podia ele ter uma bela sege. Eu quero ir ao teatro todos os dias, e hei de pôr este quarto em ordem. Este barulho é o que a minha bela mana chama uma bela desordem, uma bela confusão. E diz ele que isto é um bom sinal! É muito estúrdia, tem coisas [em] que não se parece com as outras.
GUSTAVO.- (Dentro.) Candinha, Candinha, abre a porta. Já te espiei pelo buraco da chave. Que estás fazendo? Abre.
CÂNDIDA.- Estou tirando uma coisa que o primo mandou.
(Fecha tudo, guarda a chave e abre a porta.)
GUSTAVO.- (Com um grande charuto.) Que dinheiro é esse?
CÂNDIDA.- Que tens, estás tão agitado! Que olhos, meu Deus! O que é que te fizeram?!
GUSTAVO.- Nada. Pensei muito esta manhã e quero mudar de vida.
CÂNDIDA.- Fazes bem, porque isso não é viver. Quem quererá casar contigo? Não tomas assento nenhum?
GUSTAVO.- Que dinheiro é esse? Responde.
CÂNDIDA.- Firmino disse-me que abrisse a carteira e, do dinheiro que achasse, tirasse metade para dar uma esmola. Vi embrulhados quatrocentos mil-réis, vi mais um papel com dois bilhetes de cem e estes cem separados. Creio que é isto o que ele quer, são cinqüenta; do contrário, seria deitar tudo fora.
GUSTAVO.- Não, a conta está clara: são 350. Talvez seja para aquela pobre mulher da rua do Aljube... Ainda hoje por lá passei e dei-lhe uma esmolinha, não pude dar mais. Logo lá hei de ir para saber como vai a sua pobre menina... faz-me uma pena... (À parte.) Vamos a ver se engole a pílula. Estou doido, furioso por dinheiro.
CÂNDIDA.- Isso não pode ser, é muito dinheiro! Já que o céu te tem chamado para o seu lado, não te custará nada, uma vez que lá tens de ir, dar-lhes estes cinqüenta mil-réis, porque são para ela mesma.
GUSTAVO.- Nada, nada, cumpra as ordens do primo e não seja avarenta do que não é seu. São 350 mil-réis.
CÂNDIDA.- E se o primo me criminar?
GUSTAVO.- Dize-lhe que eu sou a causa. Anda, abre, dá cá o dinheiro. Caridade pensada e de esmola mesquinha.
CÂNDIDA.- (Abre a carteira, tira mais dinheiro e dá-o a GUSTAVO.) Aqui está. Treme-me a mão, não sei o que me está dizendo o coração. Estás hoje com um ar que me parece um não-sei-quê!!
GUSTAVO.- Qual ar, nem pera ar! Estou como sempre. Que vidro é este?
CÂNDIDA.- Ah, é o remédio de Angélica.
GUSTAVO.- Coitadinha! Ela à espera dele e tu aqui de parola! Dá cá isso. (Toma-lhe o dinheiro.)
CÂNDIDA.- És selvagem até no fazer bem. Olha, Gustavo, não vai botar fora esse dinheiro, como aquele de Angélica...
GUSTAVO.- Chiton... que não estou para graças.
CÂNDIDA.- Espera-me aqui que eu já venho para te pedir que me tragas umas amostras, mas eu preciso te explicar isso muito, porque...
GUSTAVO.- Está bom. Vai-te.
(CÂNDIDA vai-se.)
Cena IV
GUSTAVO.
GUSTAVO.- Que fatalidade! Virar-se a roda da fortuna depois de haver ganhado as primeiras mãos! Fui para a roleta, zape: ganho seiscentos mil-réis, e vão-se em menos tempo do que vieram! (Tira um cartão da algibeira, como costumam ser os das casas de jogo, e senta-se.) Aqui está tudo: cinco lances da preta... três da encarnada... um preto, a encarnada segue, eu digo «agora sim»; zás, preta, preta; vou para a maldita vermelha, dobro a parada, zás. Parecia que Satanás sorria-se da minha queda! Tudo, tudo perdi. Imprudência, imprudência... não devia mudar. E o que fiquei devendo na casa? Meu pai... Deus me livre. Meu primo... tenho novo sermão, e já está sangradinho, já está mais que sangrado. Arnaud? Daquele mato não sai coelho; sovina como um ginja. Este dinheiro?... este dinheiro... e se eu o perder ainda? Se o dono da casa me disser: «Meu senhor, Vossa Senhoria não tem mais crédito aqui,» como disse ao doutor Sandelico, meu amigo? Apre, que não, longe de mim tal vergonha. Um cavalheiro deve medir suas ações. Para que fui eu enganar a tola da Cândida? Se eu perder este dinheiro?... (Pausa.) Não, este dinheirinho tem feitiço este dinheirinho tem virtudes, é destinado para uma obra pia, vamos a jogar com ele... mas se a pobre mulher fica sem a esmola?... Se eu ganhar, dou-lhe o dobro. Nada, nada, quem pensa muito fica doido e não faz nada. Por força que hei de ganhar; sinto uma coisa cá dentro que me diz: «Gustavo, tu hás de ganhar».
(Vai-se.)
Cena V
CÂNDIDA.
CÂNDIDA.- Gustavo, Gustavo, onde estás? Que doido, foi-se sem se lembrar da minha encomenda. Ora, queira Deus que aquela cabeça vá direita à rua do Aljube. Tomara já que Firmino venha, tenho dois pesos no coração: este dinheiro que dei e o incômodo de minha irmã, que não sei bem o que é. Ora a vejo boa, ora pior. Se aqui não anda outra coisa encoberta! E por mais diligências que faça, não descubro nada. Angélica fica doida; às vezes rola-me uns olhos que me metem medo! Tantas vezes lhe digo «mana, vamos dormir»; nada, lê e relê, chora por gosto. Eu não, choro, mas logo me passa e não fico o resto do tempo, como ela, tão triste. Eu sei que tudo aquilo é mentira. Ah, aí vem ele!
Cena VI
FIRMINO e CÂNDIDA.
FIRMINO.- Viva, viva. Como vai a doente? Já deu o remédio?
CÂNDIDA.- Assim, assim. Aqui está a sua chave. Já mandei o dinheiro à mãe da tal beleza engraçada, etc., etc.
FIRMINO.- Por quem?
CÂNDIDA.- Pelo Gustavo, que conhece muito essa mulher e lhe tem feito algumas esmolas.
FIRMINO.- Por meu primo! Gustavo está esmoler?!
CÂNDIDA.- Sim, senhor, por quê?
FIRMINO.- Por nada. Não sabia que ele a conhecia. (CÂNDIDA vai se indo.) Escute, prima, quanto mandou?
CÂNDIDA.- Olhe, se há alguma coisa, eu não tenho a culpa. Gustavo foi quem me disse que eram trezentos e cinqüenta. Eu queria dar-lhe somente cinqüenta.
FIRMINO.- (Pensando.) Pois bem, está bom. Agora conceda-me licença para trabalhar um pouco, tenho muito que fazer. (Baixo.) Não expliquei bem, pago.
CÂNDIDA.- Até o jantar.
(Vai-se.)
Cena VII
ANTÔNIO e FIRMINO.
FIRMINO.- (Consigo.) Há dias aziagos. Diz-me o coração que este dinheiro há de seguir o caminho do mais. Quando meu tio souber...
ANTÔNIO.- Doutor, o que é que tem esta minha Angélica?
FIRMINO.- Aquilo é passageiro, são fenômenos nervosos. Angélica tem muita imaginação, é muito impressionável. É necessário que ela vá para um lugar afastado, para um ar puro como o da serra, e lá viva sem livros, sem romances, apenas com algumas músicas, e essas mesmas devem ser alegres. E nada de cantar.
ANTÔNIO.- Tudo isso pode ser, mas há um não-sei-quê de misterioso naquela enfermidade que me confunde. E o abalo da viagem, não lhe fará mal?
FIRMINO.- As primeiras horas, talvez no primeiro dia, mas esses incômodos serão adoçados pela variedade e beleza da estrada. Quem tem alma grande não tem outro tempo mais em viagem do que para admirar a suntuosidade e magnificência desta terra. Assim tivéssemos nós um verdadeiro amor a ela e um pouco mais de bom senso. Mas vamos ao caso. É necessário que ela parta quanto antes.
ANTÔNIO.- Há de ir com teu tio. Lá pela distração não vejo grande utilidade, porque aqui ela tem tudo o que pode desejar, mesmo em casa. Sabes que nada poupo.
FIRMINO.- Mas acompanha a isso tudo a pureza do ar, a bondade das águas e uma nutrição mais sã do que a desta cidade. É outra natureza, objetos novos...
ANTÔNIO.- Doutor, eu creio que o estudo da filosofia foi muito forte para a cabeça de Angélica e que lhe enfraqueceu a saúde. Não sei... sou pai... não sei a qual eu amo mais, só o que sei dizer é que, quando Angélica adoece, eu fico mais pesaroso. Ditoso o pai que possui uma filha como Angélica! Tudo nela é de uma delicadeza extrema, um coração de anjo! Antes de voltares da Europa, ela me parecia mais bela que a irmã, não sei, havia mais simplicidade. Isto é conversa de amigo íntimo, porque um pai é pai. Ora, por exemplo, aqueles versos que ela fez no dia dos meus anos, ninguém acredita que são dela. Todos dizem que houve mão estranha e que uma moça não é capaz de os fazer.
FIRMINO.- Do que ela é capaz sei eu!... Feliz do homem que a possuir.
ANTÔNIO.- É precisamente o que ela diz de vós, quando conversa com a mãe ou com a irmã, e isto é de tal maneira que a Cândida disse que se não tinha ciúmes dela, e muito fortes, é porque a conhece e é sua irmã. Que criançadas... valha-nos isto para rir.
Cena VIII
ANTÔNIO, FIRMINO, DONA CLARA e CÂNDIDA.
DONA CLARA.- Veja se a pode persuadir a sair para fora, com a sua máxima autoridade, porque eu já me não atrevo a falar-lhe nisso. Custa-me muito amofiná-la.
ANTÔNIO.- E o que ela responde?
CÂNDIDA.- Chora e não diz nada. Por qualquer coisa chora!
DONA CLARA.- Até porque o Arnaud foi divertir-se com os seus patrícios.
CÂNDIDA.- E quando ele passou com aquele grande ramalhete de flores, ela me disse que as flores tinham cheiro de orgia e que lhe fizeram náusea.
ANTÔNIO.- Criançada. Com doçura tudo arranjaremos, e decerto que há de ir para a fazenda de meu irmão. E agora que tudo são flores no engenho! Neste tempo até o gado trabalha com gosto. Onde está Angélica agora, porque vi-a na sala do jantar com um maldito livro?
DONA CLARA.- Lá está no jardim a ler, e eu vos vinha chamar para que a fôsseis ver.
FIRMINO.- E o que lê ela?
CÂNDIDA.- Chateaubriand.
FIRMINO.- Mas que lê ela de Chateaubriand?
CÂNDIDA.- A sua favorita: Atala.
(FIRMINO fico pensativo.)
DONA CLARA.- No que pensas, doutor?
FIRMINO.- Nada... ah, perdoai-me! Revolvia agora um meio mais pronto de salvar Angélica.
ANTÔNIO.- Pois quê! Seu estado é tão grave?!
DONA CLARA.- Minha filha está tão mal?!
CÂNDIDA.- Pois que tem ela?!
FIRMINO.- Devagar, meus senhores, nada de violências. Um talho de canivete, um espinho de rosa, têm algumas vezes conseqüências muito funestas. O médico vê mais o futuro, e o futuro tem as suas indicações no presente.
DONA CLARA.- Eu morreria de dor. Nem pensar nisso quero...
ANTÔNIO.- Venha comigo, doutor, venha ajudar-me a persuadi-la.
DONA CLARA.- Tens um grande império sobre ela.
FIRMINO.- Porque sou médico, e por isso me guardo para a última demão. Vão, que eu irei depois. É muito melhor que vosmecês empreguem todo o seu poderio, toda a sua eloqüência persuasiva, todos esses mimos e jeitos que não possui um homem, do que chegar eu com a minha potestade magistral, com o meu firmã de vizir, e ela ficar contrariada. Um médico não deve agravar a moléstia.
CÂNDIDA.- Tudo se faria mais depressa indo o meu primo agora.
DONA CLARA.- Porque assim poderemos arranjar a sua roupa toda.
FIRMINO.- Vão, que eu lá irei acabar a obra.
DONA CLARA.- E ela pode levar a harpa portátil?
CÂNDIDA.- Serão necessários vestidos de lã. Às vezes faz frio na roça.
ANTÔNIO.- Caímos no moto contínuo. Isso não tem fim. Senhoras a conversarem em arranjos levam a palma a todos os teólogos em disputas sobre o livre arbítrio.
Cena IX
FIRMINO.
FIRMINO.- (Tira vários papéis da algibeira, a carteira, e cai-lhe um embrulho no chão.) O que é isto? Não me lembro de haver comprado nada. (Desembrulha.) Os suspensórios que Angélica bordou! Esse mimo que ela destinava para uma surpresa e que tanto me ocultara, envolvendo sempre num doce mistério! Um papel dentro! Versos! Vejamos: (Uma perturbação involuntária se apodera de sua alma. Considera os suspensórios, põe-nos na mesa, passa os dedos nos olhos, como para aclarar a vista, e lê:)
(FIRMINO fica estático, com os olhos fixos no último verso; depois de algum tempo corre com os olhos esbugalhados e torvos todo o papel; pega nos suspensórios, vai-os levando aos lábios, mas atira-os precipitadamente na mesa, amarrota involuntariamente o papel em uma contração das mãos, passeia e diz:) Com que sou eu o anjo exterminador que paira sobre a cumeeira desta casa! O Satanás que sopra no teto hospitaleiro a perturbação e a desgraça! A víbora que envenena o néctar do santuário doméstico! O abutre que espicaça o coração de seus benfeitores! O vampiro funesto que inocula a peste invisível de uma pústula infernal?! Ah, meu Deus! Dois abismos terríveis, dois vulcões se abrem a meus lados. Mas que espectros de fogo são estes que se apoderam de minha mente e de meu coração? Que mar de chamas, que tempestade infernal ferve, me abrasa e parece que me engole?! Ouço o canto das harpias, o ulular das fúrias e vejo o braço do Averno salpicando os céus e a terra com as trevas do caos. Tudo é escuridão! Picos alcantilados, precipícios e uma serpente infernal, tão longa como o horizonte, tão fria como a morte, que me prende, que me prende e titubeia os passos! E como, como fugir deste labirinto horrendo, como abraçar dois gigantes envolvidos em nuvens de ferro? Terá minha alma esse poderio celeste que combate, e palmo a palmo conquista e triunfa das muralhas do inferno?! Meu Deus, meu Deus, socorrei a minha inocência e extingui em meu coração esta flama que o abrasa e o calcina. (Passeia rapidamente, abre as janelas, por onde se vê a vista da barra, respira o ar puro da viração e senta-se, olhando para o Pão de Açúcar.) Rocha sublime, eterno monumento da minha pátria, gigante de granito aonde o ronco das tempestades, a fúria dos raios, não abalam o mais pequenino átomo de tuas entranhas. O raio se desliza em teu espinhaço como a jibóia num tanque circulado de flores, e a vaga do oceano que desmonta os botaréus de baluartes seculares, que desmorona esses gigantes de pedra com fibras de ferro, que iluminam as costas, vêm lamber teus pés e engrinaldá-los com festões de nívea espuma. Quanto és feliz! Os teus poros, onde ressumbra a eternidade, só serão abalados pelo som da trombeta eterna, pela voz do último hino que entoará a ruína do universo, a cessação das harmonias e a reconquista do caos! Paixões mundanas, misérias terrestres, lágrimas, dores, tu nunca conhecerás! Nunca perturbarão tua existência! Filho da criação, pátria de ti mesmo, teus amores são os céus, as nuvens tua coroa augusta, as palmeiras tuas madeixas, o teu coração a terra, os teus olhos o sol, a tua vida um círculo harmônico e o teu triunfo a eternidade. Quem me dera ser uma rocha, uma planta, porque não gemeria, não fugiria da broca ou do machado; o braço do homem seria uma nuvem e sua voz um sonho desprezível... Angélica, pobre Angélica, nascemos infelizes! Tinha-lhe, é verdade, uma simpatia que passava a ponto de entusiasmo. Mas a minha palavra a meu tio dissipava todos os fantasmas que se aglomeravam em minha imaginação. Algumas vezes me vislumbrou, não um ciúme, mas uma espécie de inveja da sorte futura de Arnaud... Ah, se eu soubesse que ela nunca o amara... Mas que intento? E a outra? Caráter igual, verdadeiro tipo de uma mulher para casa, talvez incapaz de violento amor, mas também incapaz de violento ódio... Nada, nada, é preciso fugir; abandone-se tudo, resista-se a tudo neste horrível combate, antes que a peleja se trave profundamente no meu já tão dilacerado coração, aliene a minha razão e tenha um triunfo, onde a suspeita possa enegrecer a honra. Pobre Angélica! Como me seria suave o dar-te um ósculo de ternura em tua fronte virginal... Tu és como o arcanjo da beleza sentado sobre um túmulo entre mil ruínas, o lírio da pureza, expandindo o seu aroma no deserto e açoitado pelas areias do Suão! Mas agora me lembra: Arnaud estava hoje sombrio, abaixou os olhos quando penetrei no escritório! Uma ave sinistra lhe esvoaçava na mente... Havia em sua fisionomia não sei que traços, que nuvem misteriosa, que estampavam uma grande perturbação em sua alma. Seriam algumas suspeitas? Nada, a bola de neve está lançada, e deve engrossar-se em um terreno gelado. Devo ausentar-me. Fingirei uns trabalhos científicos, um comprometimento, ganharei tempo. Meu Deus! Para que vim eu ao mundo? Para que não morri antes?...
Cena X
FIRMINO, ADOLFO e POMPEU.
ADOLFO.- Tudo vai às mil maravilhas. Aqui fica o senhor Pompeu, que é dos nossos e que nos augura um completo triunfo na corte e seus arrabaldes. Esta madrugada vou para a minha casa, e lá me demorarei o tempo necessário para certas ordens, e partirei logo a entender-me com o coronel Silvério, pintar-lhe a situação do país e convidá-lo a metermos o ombro à empresa. Seus filhos, principalmente o comendador, podem fazer muito, e vinte e dois colégios teremos a flux. (FIRMINO concerta-se durante esta fala e fecha na gaveta os suspensórios e os versos.) Deixa essa papelada por ora e ocupa-te com as eleições, que é causa muito séria. Um candidato deve pensar em colégios e somente respirar votos.
POMPEU.- No meu círculo o seu nome está aceito com especial agrado. As suas obras patenteiam os seus sentimentos e a vitória será nossa, senhor Firmino.
ADOLFO.- Então, o que dizes? Estás doente, contrariado? O que tens? Olha que nestes tempos é preciso cara alegre e fisionomia de Te-Deum com repiques e foguetes.
FIRMINO.- Perdi esta manhã um grande pleito... Morreu um pai de numerosa família, e isto me tem entristecido.
ADOLFO.- Pois ainda não estás acostumado a esses revezes?
FIRMINO.- Nem nunca me acostumarei. Sou médico, lastimo as derrotas da ciência.
POMPEU.- Pois o meu vizinho litopata não é assim. Acaba de ver expirar um doente e vai logo para um jantar ou para o teatro, e o mais é que é faceto de muito espírito. Nada compunge aquele coração.
FIRMINO.- Pois eu não sou assim.
POMPEU.- E manda logo no outro dia a conta à casa. Há de ficar rico, sabe o nome aos bois. Prometeu-me uma boa soma de votos. Quis mascar um pouco com o seu nome, mas eu lhe disse que o senhor doutor era um grande partidista da liberdade das ciências e de uma generosidade fora do comum. Ainda ontem mandou ele citar uma viúva e disse-me que se lhe não pagar as visitas já e já, há de lhe fazer penhora nos móveis da casa.
FIRMINO.- Não nasci para ter escritório de enterros; não posso ajustar mortalhas com viúvas desgrenhadas e filhos inconsoláveis. Paga-me quem quer, ou quem pode. Sou médico, tenho obrigação de curar os pobres.
ADOLFO.- Deixemos isso. Estás contente, estás satisfeito com as novas?
FIRMINO.- Sim, senhor.
POMPEU.- Seria bom que o senhor doutor escrevesse, nas horas vagas, um longo artigo. Não ofendo a sua modéstia, porque isto é natural em quase todos os candidatos que podem escrever dizendo alguma coisa mais sobre a sua pessoa, as suas obras e mesmo realçando os seus talentos.
FIRMINO.- Assim tenho escrito para um país onde pouco se escreve. As minhas obras pintam o meu caráter, manifestam as minhas idéias e minhas tendências. A minha política é a da conservação do que está e o seu aperfeiçoamento. Nunca seguirei a senda do ciganismo e não nasci debaixo do malhete de um leilão. Tenho meu preço fixo, desejo ardentemente servir a minha pátria e minhas ambições não passam de ver realizados certos progressos materiais.
ADOLFO.- Pois não falaremos mais nisso. Vamos trabalhar, senhor Pompeu, meu sobrinho é de nova têmpera.
POMPEU.- Mas é necessário amoldar-se ao século em que vivemos.
FIRMINO.- Os séculos não se fazem por si, não são obra do acaso. Pertence sua direção, quase sua confecção, aos idealistas. O exemplo de virtudes gera virtudes, assim como a corrupção gera a corrupção. Sejamos os apóstolos desta gloriosa seita e não nos importemos com o martírio. A palma do triunfo está nos céus e nas bênçãos da posteridade.
POMPEU.- Tudo isso é muito bonito para a posteridade e para os céus, mas cá na terra é necessário cavar de enxada e preparar o terreno. Quem aspira a entrar para a urna eleitoral deve saber viver, e não preferi[r] sempre o ar do dia ao da noite. Também refresca, meu rico senhor. Os atalhos, inda que às vezes escabrosos, conduzem sempre com mais prontidão ao ponto, e este mar de eleições tem às vezes suas ressacas, que esbandalham a igrejinha. A urna eleitoral é de ouro, e nada se deve fazer para desampará-la, porque os votinhos não caem do céu.
FIRMINO.- Eu não vou contra a maior parte das suas máximas, já que elas são aceitas pelos homens, mas repugno a um manejo que vai de encontro ao meu caráter e aos meus princípios. A urna eleitoral, obtida assim, já não é um padrão de glória, mas uma urna funérea, aonde se encerram as cinzas do amor da pátria e da honra individual.
ADOLFO.- Está bom, adeus. Estás muito fúnebre.
POMPEU.- Conserve o seu caráter. Essa sua independência também abre uma carreira lucrosa.
FIRMINO.- Meus senhores, eu estou hoje muito melancólico. Obrigado por tantos favores. Às suas ordens.
Cena XI
FIRMINO.
FIRMINO.-Bem disse um político que o homem de estado deve ter cabeça e não coração. A posteridade é as mais das vezes injusta para com os homens sensíveis. Ela só requer fatos estrondosos, anais de pedra e cal, e inteiro esquecimento do mundo interno do coração. Só pertence aos poetas transmiti-lo em suas obras! E o que é a vida de homem pacífico no meio da vida turbulenta da humanidade? Um suspiro no meio de uma celeuma, uma lágrima derramada no oceano, um sopro lançado às nuvens! Quimera... não posso resistir, é-me preciso fugir, e fugir depressa.
Cena XII
FIRMINO, ANTÔNIO e DONA CLARA.
ANTÔNIO.- Meu amigo, tanto eu como tua tia forcejamos para decidi-la a partir esta madrugada... Ela pede mais três dias de cidade, e meu irmão não pode esperar: quer assistir à primeira moagem. Hoje devem começar o primeiro corte de cana e o novo engenho do Roca d'Ouro tem de ser bento, e tu sabes que Adolfo não é homem que pactue com circunstâncias fortuitas para abandonar seus máximos deveres.
FIRMINO.- Tenha-se tudo pronto. Quando chegar a hora da partida, não resiste, e eu irei com ela muito além da Pavuna.
ANTÔNIO.- Muito estimo, não só por ela como por Arnaud, que, segundo me disse o meu guarda-livros, levou toda a noite a passear no seu quarto, chorou e hoje está mais que sombrio. Pobre rapaz! Vê alongar-se o dia do seu consórcio.
DONA CLARA.- Do que serve chegar um navio da Índia, vender-se toda a carga e ficarem cinqüenta contos livres de despesa?
FIRMINO.- Muitos parabéns, meu tio.
ANTÔNIO.- Isto é nada quando se trata da prosperidade moral. Do que me serve uma firma que vale milhões, se não tenho prazer? Bem sei que meus filhos não mendigarão, mas esta fortuna quero-a dividir também contigo e Arnaud. Contigo, porque és meu filho, com Arnaud porque me tem, de alguma sorte, ajudado a ganhá-la.
FIRMINO.- Meu tio, já vos devo a maior das fortunas: a minha profissão.
DONA CLARA.- Isto que teu tio diz é o que eu sinto igualmente.
FIRMINO.- Mas voltando a Angélica... é melhor não contrariá-la e deixá-la esperar os três dias.
ANTÔNIO.- E teu tio que não espera...
DONA CLARA.- A ser assim, vou eu e Gustavo acompanhá-la.
ANTÔNIO.- E o que faz esse rapaz, que ainda hoje o não vi? Anda pelos tais deboches de bom-tom? Bailes, passeios, ócio, despesas, como poderá ser ele um homem? Estou já cansado e já fiz um plano. Tomara que o tempo chegue, porque hei de dar um exemplo às famílias e mostrar que, se meu filho é mau, é porque Deus o quer. Não compreendo um moço que vive a podar as barbas como se fosse uma parreira, nem que uma casa prospere quando o dono só pensa em modas, gavotas e minuetes modernos. Fui rapaz, meu pai era bastante severo, mandou-me ensinar a dançar, um pouco de música, duas línguas para o comércio, mas nunca fiz vida de morcego. Nada, hei de cortar isto de repente.
FIRMINO.- Com prudência, meu tio. O tempo é ouro e não devemos desprezá-lo. Minha tia, apronte tudo para a viagem, porque eu prevenirei pela minha parte o que devo. Na fazenda está o doutor Anselmo, a quem escreverei uma longa carta, marcando-lhe o tratamento que sigo, e ele o continuará durante o tempo da minha viagem. Fomos colegas.
DONA CLARA.- Essa é de um dia.
FIRMINO.- É outra. Quero ir a Santa Catarina por este primeiro vapor. Tenho que acabar um tratado sobre várias plantas, quero ver as minas de carvão e...
DONA CLARA.- E o vosso casamento?!
FIRMINO.- Logo que me case com a... sua filha... perco uma grande parte da minha liberdade, e tinha dado palavra de acabar a obra antes de me casar. Demais, a saúde de Angélica carece de tempo e ainda temos que esperar.
ANTÔNIO.- Bravíssimo, disseste como um nobre negociante. A tua palavra é tudo. Quero dois felizes no mesmo dia, isto é, quero três, porque hei de remoçar vinte anos.
DONA CLARA.- E eu nada sou neste mundo, nem suas filhas?
ANTÔNIO.- Pelos homens respondo eu, pelas senhoras responda a minha bela e incomparável esposa.
DONA CLARA.- Não se ponha com essas graças.
ANTÔNIO.- Disseste bem, o tempo é ouro. Apronta-te para as viagens, vê o dinheiro [de] que precisas, pede-o a Arnaud. Eu contigo não tenho contas nem cerimônias. As tuas encomendas de ferros e livros já foram para a Europa, e espero não me recuses uma carta de ordens para Santa Catarina. É sempre bom.
FIRMINO.- Obrigadíssimo. Como médico, sempre ganho para as despesas da viagem.
ANTÔNIO.- Bravíssimo. Aproveitar as circunstâncias, tirar um partido honroso delas. Enquanto à eleição, tudo vai bem. Assim fosse o país inteiro. Vejo tudo muito sombrio e carregado.
DONA CLARA.- Pois ainda mais livros e ferros?
FIRMINO.- Os ferros gastam-se e quebram-se no exercício, e uma biblioteca nunca se farta de livros.
ANTÔNIO.- Firmino tem que fazer. Vamos, senhora.
Cena XIII
FIRMINO.
FIRMINO.-Bom homem, tipo da integridade. Algarismos no seu comércio e coração no centro de seus amigos. Assim era meu pai... meu bom pai. Um dia o tornarei a ver. (Vai para a biblioteca.) Humboldt, sim; Cuvier e Richard também; não me esqueça Berzelius e Raspail. O menos possível, para não aumentar a carga. A minha caixa de reagentes com seus instrumentos... venham também o pai da mineralogia, e já agora mais este tratado de geologia. Vamos ler algumas páginas vivas da epopéia da criação. Que horrível situação a minha! Não, este passo não é uma ingratidão, é um mal menor que outro mal. (Ouve dentro preludiar uma harpa e cantar as quadrinhas que ANGÉLICA escrevera.) Aquela voz é a de Angélica?! Ainda desconhecia mais este novo suplício! Valladolid e Goa não o desprezariam, se o conhecessem como eu. (Pega no chapéu.)
Cena XIV
FIRMINO e GUSTAVO.
GUSTAVO.- (Sem ver FIRMINO.) É o demônio que me persegue; tudo perdi e não...é o demônio que me tenta...
FIRMINO.- (Olhando para GUSTAVO.) Este ao menos cava a sua ruína. Eis a imagem do remorso, eis o estriamento do criminoso público.
GUSTAVO.- Viva, meu primo. Como lhe vai de eleições?
FIRMINO.- Otimamente.
GUSTAVO.- Já trabalhei como um escravo de mouro, e agradeça-me, que tenho tudo em ordem.
FIRMINO.- Obrigadíssimo.
GUSTAVO.- Eu quero ir com o senhor para Santa Catarina. É terra de belas moças, que têm um feitiço fisionômico, uns olhos de gancho, capazes de devorar um homem. Eu ouvi toda a sua conversa.
FIRMINO.- Não precisa ir fora daqui para encontrar isso. Olhos, mãos e pés não se encontram mais belos que os das brasileiras.
GUSTAVO.- Pode ser, mas o senhor não é dos melhores juízes. Primo, leve-me em sua companhia.
FIRMINO.- Eu vou andar pelos sertões e curtir fomes e frios.
GUSTAVO.- Eu levarei pólvora para caçar no mato.
FIRMINO.- Olhe que eu não vou dançar, percebe? E veja lá se tem coragem para abandonar as delícias da corte.
GUSTAVO.- Tenho toda, isto é uma resolução imutável. Tenho razões sagradas, quero mudar de vida, quero abandonar o meu círculo de amigos por algum tempo e tornar-me independente.
FIRMINO.- E o seu intento diplomático?
GUSTAVO.- Para Paris é impossível. São trinta cães a um osso e, demais, dizem-me que há muito trabalho na legação.
FIRMINO.- Foi o vosso protetor que vos deu essa nova?
GUSTAVO.- Foi o Guilherme do armarinho, e aquele velho Tibúrcio, que mora naquela espelunca da rua do Carmo. Sabem de tudo quanto se passa dentro e fora do império.
FIRMINO.- Anda a nossa diplomacia e os negócios do mundo por linhas e teias de aranhas?! Bom, e quem me afiança o seu bom comportamento? Quem me assegura que não hei de ter grandes desgostos?
GUSTAVO.- Eu. Tenho olhado para os vossos conselhos como para os de um pai. Tenho seguido à risca as máximas de vossa moral, e...
FIRMINO.- As máximas da minha moral?!
GUSTAVO.- Sim, senhor, e o que tem a dizer contra? O que tem a exprobrar-me?
FIRMINO.- Olhe que por lá não há certas casas, nem as árvores destilam o suco de certas garrafas.
GUSTAVO.- Bem sei, mas eu quero emendar o passado, quero mudar de vida. Estou muito cansado.
FIRMINO.- Isso é obra do momento.
GUSTAVO.- Quero fugir de uma paixão que me mata, de um cancro que me devora. Vou pedir dinheiro a meu pai e quero ir em sua companhia.
FIRMINO.- Não precisa, ele dá-me uma carta de ordens. Demais, a minha bolsa não tem sido sempre vossa?
GUSTAVO.- É verdade, mas nesta ocasião preciso de dinheiro. Uma viagem não é um passeio. Não sabe, primo? O sapateiro negou-me o botão de brilhantes. Ameacei-o de chamá-lo ao juiz de paz, e ele teima em negar, de maneira que nada disse a minha mãe, porque ela há de ficar muito zangada. Deu-mo no dia de seus anos, e tinha a minha firma.
FIRMINO.- A vossa viagem é tão verdade como a história do botão.
GUSTAVO.-Juro-lhe por nossa amizade e sangue que o botão...
FIRMINO.- Aqui o tem. (Tira da algibeira o botão.)
GUSTAVO.- (Disfarçando.) Dê cá, dê cá, é ele mesmo. O maldito já o tinha vendido ou empenhado por aí?
FIRMINO.- Empenhado estava.
GUSTAVO.- (Gritando.) Hei de lhe quebrar as ventas.
FIRMINO.- (Olhando para GUSTAVO fixamente.) Vós dissestes que uma paixão vos mata e que um cancro vos devora?
GUSTAVO.- Falo de uma grande paixão...
FIRMINO.- Da paixão do jogo, do cancro das orgias!
GUSTAVO.- O senhor me insulta em minha casa?
FIRMINO.- Basta de hipocrisia... Sabeis vós o que é o jogo, o que são as orgias? A porta do calabouço que mostra o caminho do cadafalso.
GUSTAVO.- Eu nunca joguei, não seja caluniador.
FIRMINO.- Lembra-se daquele desgraçado que se suicidou? Pois eu fui chamado para vê-lo e, passando pela segunda sala, vos vi parando numa roleta... essa roleta onde se evaporam as esmolas das viúvas e das órfãs.
GUSTAVO.- Isso é mentira.
FIRMINO.- Mentira e calúnia, desgraçado?! Aqui está o recibo de oitenta mil-réis, valor por que foi empenhado esse alfinete ao dono da casa do jogo! Vosmecê conhece muito a letra dele...
GUSTAVO.- Dê cá esse papel.
FIRMINO.- Não dou.
GUSTAVO.- Pois há de dar por força. (Tira um punhal.) Dê cá esse papel, se não...
FIRMINO.- Se não o quê? Ingrato, doido... (GUSTAVO fica tremendo, avança para FIRMINO, quer feri-lo com uma mão e tirar-lhe o recibo com a outra. FIRMINO segura-lhe no braço, lutam e arranca-lhe o punhal, atirando com ele de encontro a uma banca, que cai e faz um grande estrondo.) Envergonha-te, louco, fraco, covarde.
(GUSTAVO foge.)
Cena XV
FIRMINO, GUSTAVO, DONA CLARA, ANGÉLICA e CÂNDIDA.
DONA CLARA.- O que é isto, meu Deus? Que barulho é este? O que fez aqui aquele doido?
FIRMINO.- Não foi nada, minha tia.
ANGÉLICA.- Um punhal no chão?!
DONA CLARA.- O que é isto, Firmino?
CÂNDIDA.- O primo está ferido!
ANGÉLICA.- Que horror, meu Deus!!!... Gustavo...
DONA CLARA.- Que vejo?!... Ó mãe desgraçada!!!
FIM DO ATO III
Vêem-se no gabinete de FIRMINO os baús e malas de viagem, livros no chão, uma grande lata cilíndrica, o estojo de ferros e um saco de tapete. A mesa limpa de papéis, tudo anunciando viagem.
Cena I
DONA CLARA e CÂNDIDA.
CÂNDIDA.- (Com uma bandeja de roupa engomada.) Aonde botarei, minha mãe?
DONA CLARA.- Aqui encima desta mesa. Está esta casa como num dia de mudança. Não se vêem senão baús pelo meio da casa. Aquela terrível ação do Gustavo tem apressado Firmino de tal maneira que não dormiu, e assim mesmo, com o braço doente, trabalhou toda a noite. Eu creio que ele não tinha tenção de o ferir.
CÂNDIDA.- Também eu. Foi uma coisa tão repentina! Firmino não diz nada, Gustavo fugiu na besta do pajem de meu tio Adolfo, que estava na porta, meu pai ainda não veio, de maneira que nada sabemos.
DONA CLARA.- Não importa. É uma ação negra a de Gustavo, e não lhe vejo motivo nenhum.
CÂNDIDA.- Como vai ficar esta casa triste! Nós vamos para a roça com Angélica, Firmino teima e mais que teima em embarcar. Olhe, minha mãe, se não fosse ter vivido aqui com este meu primo, e estar isto já sabido em casa, não me casava com ele.
DONA CLARA.- Que estás dizendo, menina?!
CÂNDIDA.- Homem com vontade de ferro, que não muda ainda mesmo doente! Ao menos o mano Gustavo não é assim. Nos momentos de bom humor cede a tudo, principalmente se a gente lhe diz que ele é bonito. Faz tudo quanto se lhe pede. Minha mãe, vamos ao menos a este último baile dos estrangeiros, somente por despedida.
DONA CLARA.- Não tens pejo de pensar assim? Não vês como estamos todos, como está esta casa?!
CÂNDIDA.- É porque tenho medo [de] que este meu vestido do seda da Índia fique mofado, ou que mude a moda durante o tempo [em] que estivermos na roça. Meu Deus, que vida triste vou eu passar, e lá então! De noite só se ouvem os grilos e sapos, tudo está calado, e bom é ainda que meu tio me dispensa de rezar o terço.
DONA CLARA.- Sinto-me velha, sinto definhar-se-me a existência, como se uma lanceta me rasgasse as veias. E no meio de tantas tribulações, no meio de tantas dores, sou obrigada a ouvir os teus disparates, essa tua falta de sensibilidade. O que Deus deu demais a tua irmã, podia dar-te a ti.
CÂNDIDA.- Deus me livre de ter o gênio dela, andar triste por qualquer coisa e nunca ajuntar um vintém!...
DONA CLARA.- Vamos arranjar o que é nosso, porque o que não for, havemos de passar sem ele.
Cena II
FIRMINO, DONA CLARA e CÂNDIDA.
DONA CLARA.- Então, como estás, Firmino? Vais melhor do teu braço? Meu filho... desculpa aquele louco. São rapaziadas, são os maus conselhos de uma certa roda com quem anda metido. Mas como começou esta coisa, que eu nada entendo?
FIRMINO.- Não é nada, minha tia. A ferida não foi profunda. Ficarei uns quinze dias privado de certos usos do braço, mas na viagem cobrarei o perdido. O ar é puro e sadio. Já falei ao doutor Anselmo para vir substituir-me em minha ausência. É um grande prático, um homem que faria honra à medicina em qualquer parte do mundo.
CÂNDIDA.- Aquele jarreta, que parece um velho quando vai aos bailes?
FIRMINO.- O hábito não faz o monge. Não segue a moda dos alfaiates, mas segue a dos filósofos; não anda corrente com os cabeleireiros, mas anda em dia com a ciência. É dos que lêem tudo quanto se escreve hoje e dos que não desprezam os livros de letra vermelha.
CÂNDIDA.- Ele mesmo parece um alfarrábio.
FIRMINO.- Não há alfarrábio mais velho que a natureza, e no entanto todos os dias ela nos descobre coisas novas. Assim são os velhos mestres, e com uma única diferença: que dizem muito em poucas palavras.
DONA CLARA.- Aquele homem tem um ar sério, uma fisionomia de quem anda sempre ocupado. Já tenho ouvido falar muito bem dele, e dizem que escrevera na França.
FIRMINO.- Uma obra que o imortalizou.
DONA CLARA.- E aqui tem ele escrito alguma coisa?
FIRMINO.- Muitíssimo, e é num grande livro onde lança todas as suas receitas e despesas. Por mais talentos que tenha um homem, não pode escrever sobre aturados estudos quando tem vinte e duas bocas em casa e é obrigado a estar na rua todas as horas do dia.
DONA CLARA.- Não estejas tão sério, Firmino, porque isso me entristece, e não venhas aumentar mais as minhas aflições. Perdoa, perdoa, por quem és, pelo amor e amizade que te temos, aquela doidice de Gustavo. Teu tio está inconsolável. Saiu e ainda não voltou.
FIRMINO.- Nem disso me quero lembrar, é uma coisa passageira. Tenho outras idéias que me perseguem. Há dias aziagos, há dias em que a fivela do cilício dos maus pressentimentos aperta o coração e parece que uma mão do inferno se levanta para esmagar o homem. Estou triste, não sei por quê... Tenho necessidade de ar, de sair, de afastar-me do mundo por algum tempo... Preciso de repouso.
CÂNDIDA.- Tudo isso são saudades encapadas.
DONA CLARA.- E por que, meu filho? Tu sabes que eu sou tua amiga.
FIRMINO.- Aí vem meu tio, quero fugir da sua presença.
DONA CLARA.- Não, senhor; mando que fique.
Cena III
FIRMINO, ANTÔNIO, DONA CLARA e CÂNDIDA.
ANTÔNIO.- Estou suando em bicas. Gustavo foi para a chácara, e assim que soube que eu lá ia fugiu e meteu-se pelo mato dentro. Mandei-o chamar e não o acharam. Creio que o rapaz ficou intimidado e veio-me com esta mentira.
DONA CLARA.- E o feitor, o que disse?
ANTÔNIO.- Oh, doutor, como está? Não faça caso daquele doido, que eu o vingarei. O feitor disse-me que chegara muito agitado, que escrevera esta carta e mais outra que não tinha acabado, a qual estava toda rasgada.
DONA CLARA.- E depois?
ANTÔNIO.- Depois cheguei eu.
DONA CLARA.- Aonde está a carta, e para quem é?
ANTÔNIO.- Aqui a tem, doutor. Eu não abro cartas alheias. Vejamos o que diz esse doido.
DONA CLARA.- Há de lhe pedir perdão.
FIRMINO.- Guardai-a, senhor; eu não aceito.
ANTÔNIO.- Se ela me não pertence...
FIRMINO.- Já sei o que ela diz: ou uma declamação estulta, algumas vociferações, ou pede desculpa do atentado e revela um segredo que só ele e eu sabemos.
ANTÔNIO.- Mais um motivo para eu não abri-la.
DONA CLARA.- Pois eu abro-a, dê cá.
ANTÔNIO.- Não, senhora. Uma carta é sagrada. Só podem abri-la ou o dono, ou o seu procurador autorizado por ele.
FIRMINO.- Pois sejais vós, meu tio, o meu procurador.
DONA CLARA.- E agora?
ANTÔNIO.- Estou ainda muito agitado. Tenho de ir ao escritório, tenho de pensar em coisas que demandam muito sossego e não quero mais agitar-me. Guardo-a para depois.
DONA CLARA.- Como se pode guardar na algibeira uma carta destas?
ANTÔNIO.- Não vamos a perder tempo. A condução está pronta, as senhoras arranjam o que é seu, porque Firmino deve voltar e a barca do sul sai nestes três dias.
DONA CLARA.- Vamos, vamos, Cândida. E o senhor, só logo depois dos seus negócios é que há de abrir essa carta?
ANTÔNIO.- Sim, senhora, e do conteúdo a farei ciente. Anda, vai trabalhar.
Cena IV
FIRMINO e DONA CLARA.
DONA CLARA.- Que segredo é o que contém aquela carta? Ou é uma desculpa que inventaste para com teu tio?
FIRMINO.- Se ele o não escreveu, não devo dizê-lo. Talvez nela venha o uso de todos os vaidosos, que nunca reconhecem os seus erros e situam a causa principal fora da questão.
DONA CLARA.- Tanto um como o outro são fechaduras de patente.
Cena V
FIRMINO.
FIRMINO.-Ainda três dias de martírio, ainda três dias de espera. Sinto-me acabrunhado, a atmosfera me comprime, não posso respirar. Sinto a toga de Satanás pesar-me sobre os membros e todos os suplícios de Dante, quando penso na minha horrível situação. Em vão me debato contra as ataduras que me cingem... Como um vil escravo, sinto a existência arrastar-se! Uma poeira sulfúrica me resseca os lábios... Quão perto do riso está a lágrima, quão perto da vida existe a morte! Fatalidade maldita! Como, como poderei nutrir um fogo sagrado com lágrimas de sangue? O amor se despertou em minha alma como uma febre perniciosa. Esse astro que brilha nos céus e se reflete no inferno, esse néctar que embriaga o olfato e envenena o paladar... esse raio que me alumina e me despedaça... semelhante ao trovão da madrugada, com estampido horrendo sobressalteou minha alma, roubou-lhe o sono angélico da paz e, do trono do heroísmo, me precipitou no pavimento da infâmia, aonde me debato como um cão envenenado! Mísera Angélica... mísero de mim! Ambos entoamos o hino da desgraça na hora do nascimento, e hoje entoamos a nossa nênia de morte. Ambos inocentes e ambos condenados a um castigo eterno. Decerto que este mundo é para os maus... para os insensíveis. Mísero daquele a quem a natureza estampou na fronte o nobre selo do engenho e da grandeza d'alma! Mísero daquele a quem o anjo da virtude insuflou no peito o ósculo sagrado, e que o não limpou com a primeira lágrima da vida, e que o não repeliu como um demônio empestado... Doce Angélica, brilhante sílfide, cujos pés mimosos espalham o perfume da virtude. Anjo de bondade, que se libra entre os aromas mais puros que há nos céus. Harpa do santuário, que infunde amor e veneração com sua sagrada melodia... Não, Deus não há de permitir esta infernal anomalia. O astro da virtude tem seu centro no meio dos céus e sua órbita de amor se há de completar, ainda que seja na escuridão da eternidade.
Cena VI
FIRMINO e ARNAUD.
ARNAUD.- Doutor, meu amigo velho, que tem que está tão triste?
FIRMINO.-Não tenho nada. Vós por aqui é novidade!
ARNAUD.- Nenhuma. Vinha visitar-vos e entregar-vos esta carta de ordens que meu amo vos manda.
FIRMINO.- E aonde está ele agora?
ARNAUD.- No escritório. Já que vos acho tão sério, e que não podemos brincar como de ordinário, nem nos lembrarmos da França.
FIRMINO.- Bastante me tenho lembrado hoje dela.
ARNAUD.- E eu, meu amigo, não vivo agora. Tenho umas saudades que me fazem doido, estou como uma fera a quem roubaram os filhos. Eu morro se não volto já; não sabia que as saudades da pátria podiam tanto sobre o homem.
FIRMINO.- É o que nós chamamos nostalgia. Tem conseqüências funestas.
ARNAUD.- Neste caso, meu amigo do coração, ajude-me a fazer um dos maiores sacrifícios que posso fazer. Salve a minha vida, porque eu morro se fico mais um mês no Brasil. Estes calores me matam, o trabalho da casa de seu tio é muito grande e, apesar de toda a minha amizade e gratidão, de todos os respeitos que devo à vossa ilustre família, não quero morrer aqui. Quero que meus ossos descansem em terra de França.
FIRMINO.- Louvo muito vossos patrióticos sentimentos, mas reprovo uma ação, apesar de não ter ampla explicação, que é o esquecimento total de minha prima Angélica, a quem vós mesmo pedistes a mão de esposa.
ARNAUD.- Ah, meu Deus, como sou desgraçado! Até o maior dos meus amigos, o meu segundo pai, me condena e não quer compreender meu coração inocente.
FIRMINO.- Se sois inocente e homem de honra, nunca podereis deslustrar o nobre sangue de vossos maiores, nem praticar ações que desmintam o filho de um marechal, de um cavalheiro francês.
ARNAUD.- Mas é isso mesmo. É uma ação heróica a que vos quero propor, e pedir-vos que me ajudeis, se não, eu morro. Dizei-me sinceramente se sois meu amigo, se desejais a minha felicidade.
FIRMINO.- Creio que até hoje em nada me tenho desmentido.
ARNAUD.- Pois, se sois meu amigo, por que não me ajudais? Eu contava com o vosso amparo, olhava para vós como o único lenitivo à minha dor, e queria que partisse de vossa mão o bálsamo sagrado para as chagas de um coração que não pode mais viver nesta terra.
FIRMINO.- E Angélica?
ARNAUD.- Não falemos de Angélica, que é bela, rica, prendada e a quem não faltarão adoradores, e seus compatriotas. Tratemos de um desgraçado... Doutor... por quem sois, valei-me, eu não posso mais viver assim.
FIRMINO.- Arnaud!
ARNAUD.- Meu amigo!
FIRMINO.- Deixemo-nos de subterfúgios, deixemo-nos de hipocrisias.
ARNAUD.- Subterfúgios convosco, meu amigo! Arnaud hipócrita, eu! Eu, que tenho sido até agora o símbolo da franqueza e trago nos lábios o retrato do coração!
FIRMINO.- A revolução da França vos abre uma nova carreira. A queda de vossos inimigos vos facilita a reconquista de uma glória perdida. Todos os laços antigos, todas as prisões do coração estão quebradas pela ambição. Eis o que leio nas vossas palavras, eis o que denuncia o vosso coração.
ARNAUD.- Que justiça, meu amigo! Que sugestões funestas a uma alma tranqüila. Todo esse aparato não cabe no meu peito. Dizei antes que me não quereis valer, que me abandonais a mais cruel desventura e respondei, como um verdadeiro amigo: «Não te quero ajudar, Arnaud, não quero promover a tua felicidade, não te quero salvar desse abismo horrível».
FIRMINO.- Pois dizei o que quereis, mas sem refolhos.
ARNAUD.- Eu não tenho refolhos, meu amigo. Queria que pedísseis com muita instância a vosso tio que me desligasse de uma promessa irrefletida, que me despedisse de sua casa, que me maltratasse mesmo. É um grande obséquio, é a minha salvação. Dou-vos licença para falardes mal de mim, dizei o que vos parecer. A tudo me submeto, tudo aceito como favor, porque quero-me ir embora.
FIRMINO.- Arnaud, o homem que me propõe semelhante manejo não deve ter medo de ir a meu tio e dizer-lhe: «Senhor Antônio, meu amo, eu rompo o contrato, não posso mais casar com sua filha, tenho outras ambições, quero voltar à minha pátria...». Isto é menos infame, é muito mais heróico do que a vossa proposição. Arnaud, riscai-me do livro de vossos amigos eternamente e deixai-me em paz. Se tendes ambições, desde já vos profetizo uma derrota completa. Não é num país nobre por tantos títulos, por tantos séculos de glória, que se faz carreira com uma alma como a vossa. Esse povo heróico, esse gigante que se levantou em massa e derribou do trono o cetro do fanatismo vos repudia como um filho espúrio, como um empestado sem esperança de vida.
ARNAUD.- (À parte.) Quem te dera mil punhais! (Para FIRMINO.) Que injustiça, meu amigo! Enfim... não tenho amparo sobre a terra. Doutor, o meu cavalheirismo, a minha incomparável gratidão me faz[em] calar. Tudo sofrerei, porque a gratidão pode mais que tudo.
FIRMINO.- Vá a meu tio.
ARNAUD.- Já tive uma pequena explicação com ele, que nada temesse, que... enfim, eu me casaria, e mais outras coisas. Mas eu não me abri com ele. Desejava que tudo partisse da vossa mão, como mais seguro e mais pronto.
FIRMINO.- Não vejo claro. Este vosso manejo me oculta alguma ação infame. Arnaud, eu leio em vossos olhos uma traição qualquer. Na ordem natural sois uma anomalia.
Cena VII
FIRMINO, ARNAUD e ANTÔNIO.
ARNAUD.- O respeito e a gratidão unicamente me fazem calar. Bastantes provas tenho dado do meu cavalheirismo! (Quer ir-se.)
ANTÔNIO.- Esperai, Arnaud.
ARNAUD.- Tenho de mandar apresentar aquelas letras, e eu mesmo queria ir descontar aqueles bilhetes do Tesouro.
ANTÔNIO.- Já providenciei tudo. Não há crime mais horrível do que a ingratidão!... Dizei-me uma coisa, Firmino, que castigo merece um homem que atropela todos os seus mais sagrados deveres, que com a mais refinada hipocrisia engana os anjos e lança no seio de uma família a desconfiança, a desunião e quase que a desonra?
ARNAUD.- Senhor Firmino, que boa ocasião! Lance tudo para cima de mim...
FIRMINO.- O desprezo, e entregá-lo aos seus remorsos.
ANTÔNIO.- E quando seu coração se acha já tão empedernido, tão insensível que não sente a voz da natureza e despreza todos os dogmas da moral eterna?...
FIRMINO.- É preciso puni-lo.
ANTÔNIO.- Mas que punição pode dar um pai de família, um homem honrado, conhecido de todo o mundo e que sabe perfeitamente que a menor publicidade das cenas do sacrário doméstico redunda em seu desabono, em sua própria desonra?! Dizei-me que castigo merece o falso e traiçoeiro ladrão, que vem roubar a paz, a honra e a vida de uma família honesta, que sabe perfeitamente, por já tê-lo calculado, que os pais são obrigados a gemer em silêncio, que ao esposo é necessário lançar tais crimes num sumidouro, viver com alegria emprestada no semblante, chorar dentro de sua casa sobre as ruínas de sua honra, de sua felicidade, e tragar dia e noite num cálix de amargura eterna?!
FIRMINO.- Quem com ferro fere com ferro é ferido. Aquele que nos quer roubar a paz, que nos atraiçoa covardemente... é um homem inútil no mundo. Uma traição paga-se com outra. A felicidade é a vida.
ANTÔNIO.- Eu não sou nenhum assassino.
(Espanto de FIRMINO. Pausa.)
FIRMINO.- Que escuto! Mas o que é isso, meu tio? Que desgraça é essa? Quem ousa à luz do dia desonrar-vos? Dizei-me se há mais alguém... O vosso sangue é o meu, a vossa família é a minha e o meu braço sabe vingar afrontas... talvez... entre nós esteja...
ANTÔNIO.- O novo Judas... um outro Judas capaz de vender o divino mestre.
(Levanta-se, lança uns olhos coléricos sobre FIRMINO, vai para ARNAUD e aperta-lhe a mão com efusão de amigo.)
ARNAUD.- (Com muita humildade e baixo para ANTÔNIO.) Senhor, vós me prometestes segredo. Vossa palavra de honra não pode divulgar um segredo que ele, Gustavo e eu só sabemos neste mundo.
ANTÔNIO.- E como desmascarar a impostura? Como rasgar o manto da hipocrisia? Ah!... um segredo... um segredo... agora me lembra... (Tira a carta da algibeira.)
ARNAUD.- Por piedade, senhor, por piedade... Eu faço o maior de todos os sacrifícios do mundo, deponho a minha amizade, a minha gratidão. Enterro eu mesmo o punhal no meu coração. Fujo... fujo, senhor, e deixo a vossa casa em paz... deixai-me fugir... e nunca mais, nunca mais... perturbar com a minha presença... Sejam todos felizes... seja eu só o infeliz...
Cena VIII
FIRMINO, ANTÔNIO, ARNAUD e DONA CLARA.
ANTÔNIO.- Aqui está o desfecho do nó górdio, a espada de Alexandre e a luz do inferno que vai tudo esclarecer.
(Lê a carta para si, olha furioso para FIRMINO e fica como uma estátua olhando para o chão.)
DONA CLARA.- Esta casa parece que está mal-assombrada. Vejo todas as fisionomias como num funeral. O que é isto, senhor Antônio? O que é isto, Firmino? Acaso Gustavo... Meu Deus, eu perco a cabeça... O que é que há? Digam, pelo amor de Deus. O coração me bate e parece que quer saltar fora do peito.
ANTÔNIO.- É o inferno que se abriu para tragar-me na velhice... Fui eu mesmo que nutri a serpente que me havia de envenenar... Fui eu mesmo que levantei o muro que me havia de esmagar... e o que preparou esse vaso de infâmia que me havia de tingir as cãs e que há de derramar o resto na minha sepultura. (Para FIRMINO.) Lede esta carta.
ARNAUD.- Senhor, eu devo parecer muito culpado aos vossos olhos, aos olhos de todo o mundo. O ferro que me lanha o coração abre feridas profundíssimas. Não as posso mostrar todas à face do dia, deixai-me fugir, regressar para a minha pátria... A duas mil léguas de distância, não posso perturbar a felicidade de ninguém... (Baixo a ANTÔNIO.) A vossa palavra de honra é sagrada. Eu conto com ela, e não me comprometa...
ANTÔNIO.- Gemer em silêncio é gemer no inferno.
DONA CLARA.- Acabe-se com isto!!
FIRMINO.- (Depois de ter lido a carta com sangue frio.) Minha tia, chame Angélica e Cândida. Esta carta supre Gustavo. Nas grandes crises do coração só há um tribunal, e é o conselho de família. Reunidos todos, a verdade há de aparecer.
DONA CLARA.- Já, (Chega à porta.) Angélica, Cândida... olá... chamem minhas filhas.
(Grande silêncio.)
Cena IX
FIRMINO, ANTÔNIO, ARNAUD, DONA CLARA, ANGÉLICA e CÂNDIDA.
DONA CLARA.- Aqui estamos todos. Senhor Antônio, pertence-lhe, como chefe da família, esta inquirição.
FIRMINO.- Aqui tem a carta de Gustavo.
ANTÔNIO.- Arnaud, meu amigo, lede esta carta... e tende pena de mim.
ARNAUD.- (Depois de ler.) Está rompido o segredo, senhor Antônio, esta carta de seu nobre filho e meu amigo veio aclarar tudo. Eu seria um homem sem... não quero ofender a quem tanto devo... Sou cavalheiro. O meu contrato de casamento com a senhora dona Angélica está roto, e um homem de bem não tem outro partido que tomar senão o de ausentar-se eternamente. Meus benfeitores e amigos parto para a França no primeiro paquete. (Quer ir-se.)
ANGÉLICA.- (Sai-lhe ao encontro e tira-lhe a carta da mão.) Esperai, senhor, que um contrato não se rompe sem o consentimento de ambas as partes.
ANTÔNIO.- (Para ARNAUD.) Homem de honra, a vossa memória será eterna no meu coração. Antônio José da Silva não é capaz de deixar um amigo lutar com a miséria... o meu braço, o braço de um amigo lá encontrareis na pátria. É quase uma restituição que vos faço. Vós me ajudastes a ganhá-lo; pois bem, participai dele. O pão do amigo, do verdadeiro e honrado amigo, é também dos seus fiéis amigos.
ANGÉLICA.- Senhor Arnaud, que motivo vos impele a desprezar a minha mão?
ARNAUD.- Eu nunca disse uma palavra contra Vossa Senhoria, antes sempre a respeitei muitíssimo e nunca pude crer...
ANGÉLICA.- Acreditar o quê!? Que motivo tendes para romper este contrato?
ARNAUD.- Esta carta... eu não quero dizer nem supor mal, porém... Se meus olhos me não enganam, Vossa Senhoria não sente simpatia por mim, e demais... coisas que tenho observado... tenho chorado muito, muito me tenho apaixonado... mas esta carta?
ANGÉLICA.- Esta carta nada diz.
ARNAUD.- Mas diz muito a vossa frialdade para comigo, e mais... e mais... o que está claro nessas palavras do senhor Gustavo...
ANTÔNIO.- Gustavo, Gustavo, meu nobre filho! A honra palpita em teu peito com todo o vigor da mocidade, com todo o heroísmo de teu pai... Tu não desmentes o nobre sangue dos Silvas e podes aparecer radioso à face do mundo.
FIRMINO.- Senhor, há muito que observo vossa alma pelos vossos gestos. Se me atirais uma seta envenenada por algum traidor por algum hipócrita, lembrai-vos que a natureza não desmente em um só dia a obra de tantos anos.
ANTÔNIO.- Poupai-me a vossa presença. Há muito que deveríes estar confundido no meio desta cena lutuosa, de que sois a causa. Ingrato! (Muito alto.) Ingrato, mil vezes ingrato...
(Grande espanto e grande silêncio.)
DONA CLARA.- Que ouço, meu Deus!
CÂNDIDA.- O que é que há? O que é isto?!
ANGÉLICA.- (Ajoelhando-se aos pés do pai.) Meu pai, meu pai...
ANTÔNIO.- Levanta-te, desgraçada.
DONA CLARA.- O que é isto? O que quer dizer tudo isto?
ANGÉLICA.- (Levantando-se.) Desgraçada! Desgraçada?! Sim eu sou uma desgraçada na terra, uma vítima sem igual... (Caminha para ARNAUD.) Eis o verdugo de minha vida, o hipócrita maior que há no mundo, o homem mais infame que o inferno vomitou sobre a terra, satanás encarnado. O demônio da imoralidade, o vampiro funesto que urde fatalidades e talha a mortalha de suas vítimas dentro das cavernas do seu coração, que é uma pedra. Desgraçado mundo em que vivemos! O dia em que se descobre um hipócrita é uma dia de festividade nos céus, um dia de triunfo na terra. Mas aqui só eu te conheço, miserável, que assim pagas a minha generosidade e compaixão.
ARNAUD.- Minha senhora, eu nunca disse nada.
ANGÉLICA.- E podereis vós dizê-lo?! Amaldiçoado homem! E a terra não se abre para engolir um monstro?!
ARNAUD.- Vós amais o senhor Firmino, e muito que o amais! Rompa-se tudo. Um cavalheiro como eu, um homem de honra, um homem de sentimentos nobres, não podia tolerar tais cenas e ser arrastado a uma união... apesar de toda a minha generosidade e gratidão.
FIRMINO.- (Atira-lhe com uma luva na face. ARNAUD treme, quer segurar na luva e ela cai.) Escolhei as armas, lugar e hora. Não tenho testemunhas.
ANTÔNIO.- Sim, Arnaud o meu fiel amigo, foi quem me descobriu tudo, foi quem desmascarou o hipócrita e que me mostrou o fio da trama mais infernal que há no mundo: a fugida de Angélica.
FIRMINO.- De vida e de morte! (Para ARNAUD.) Mandaremos abrir uma sepultura e um de nós ali ficará eternamente.
ARNAUD.- Aceito, mas não quero abusar da vossa fraqueza. Esperarei que o vosso braço tome vigor, esperarei todo o tempo que for necessário. Sabeis que sou um gentil-homem e que ainda não se extinguiram no meu peito as idéias que recebi e que fazem o meu orgulho. Sei quanto sois destro nas armas, conheço vossa coragem e por isso não quero combater com um braço enfermo e exprobrar-me eternamente uma vitória sem louros e sem honra.
FIRMINO.- Filho de um nobre país, dessa terra clássica de heroísmo e de glória, ainda ousais profanar o nome sagrado de vossa augusta pátria e conspurcá-lo com os andrajos de vossa infâmia? Se a mínima das virtudes de um país clássico de fastos gigantescos, de honra e de cavalheirismo existisse em vossa alma... nunca, nunca procederíeis de tal maneira...
ANTÔNIO.- Um duelo! Um duelo em minha casa?!
ARNAUD.- Basta de insultos, senhor Firmino, as nossas armas darão razão. Eu esperarei.
FIRMINO.- Não, não, vós não sois filho de um homem tão grande, de um general a quem a história e o mundo venerará a memória. Vós sois um filho espúrio, o fruto de um adultério, de um crime... Em vossas veias gira o fogo do inferno em vez de sangue, e o vosso berço não foi embalado pelas virtudes de uma terra clássica... Uma harpia vos amamentou e o gênio de Mafistófeles dirigiu o vosso coração.
ANTÔNIO.- Silêncio em minha casa.
DONA CLARA.- Será isto sonho?! Isto não pode ser.
ANTÔNIO.- É necessário uma vítima à vossa cólera. É necessário que no holocausto de vossa vingança corra o sangue da inocência...
ANGÉLICA.- Meu pai, meu pai...
ANTÔNIO.- Poupai-me a vossa presença. Senhora, mande chamar Gustavo, que venha receber nos braços de seu pai o prêmio de seu nobre caráter. E vós, senhor doutor Firmino, tendes vinte e quatro horas para dispor vossa mobília e livros. Este quarto deve, de ora em diante, ser habitado por Gustavo e não quero ninguém de estranho em minha casa.
DONA CLARA.- Senhor, o que fazeis?! Respeitai a boca do mundo... Firmino... não alegais uma palavra em vossa defesa! Como uma estátua de mármore contemplais toda esta cena de desgraças e ao menos... ao menos... Eu não ouso acusar-vos, parece-me tudo isto impossível, não olhais para vosso tio... tratai de abrandá-lo e de desfazer toda esta urdidura infernal. Meu Deus, que tormentos!
ANGÉLICA.- Firmino, meu pai, minha irmã, e vós, senhor Arnaud... que conheceis minha inocência, escutai-me todos. Esta carta de meu irmão, escrita por um alucinado, escrita pela mão que levantou um punhal para o homem mais honrado que há na terra, nada contém contra mim ou contra a minha honra. Eu a leio: «Senhor Firmino; se levantei um punhal para vos ferir foi levado pela justíssima cólera que me abrasava o coração. Vós feristes a minha honra, a de toda a minha família, no ponto mais delicado que pode haver para um ódio eterno. Publicando (vós bem o sabeis...) esse ato de vossa covardia, qual seria o fim de tão negra ação senão a vossa perda? Hipócrita concertado, por um frio cálculo, prossegui vossa carreira, perturbai nossa harmonia, mas envergonhai-vos daquele que vos há de substituir no seio dessa casa, que um dia será chefe para se vingar... e, se sois homem de bem, emendai vosso erro, corrigi a vossa obra, não por mim, mas por meu pai que vos educou, por minha mãe que tanto vos estima e, sobretudo, por minha desgraçada irmã. Gustavo». Nesta carta não há nada de claro, nada de positivo.
ANTÔNIO.- Cala-te, audaciosa, e não venhas mascarar a tua imprudência, o crime de tuas intenções, com uma afetada franqueza.
CÂNDIDA.- (À parte.) Não era debalde que eu tinha minhas suspeitas. Por Firmino meto a mão no fogo, mas ela?...
FIRMINO.- Meu tio e minha tia, meus benfeitores e amigos, eu quero justificar-me. Um coração generoso...
ANTÔNIO.- Generoso?!
FIRMINO.- Generoso como a amizade, grande como o universo e sensível como a gratidão... (Vai para ANTÔNIO e ajoelha-se.) É a inocência que se curva a vossos pés. Ouvi-me, por piedade, ouvi o desentrecho de uma trama infernal, contemplai o desmoronamento da obra mais infame que concertara Satanás...
(Quer pegar na mão de ANTÔNIO; ele recua e aponta para a porta. ANGÉLICA corre a abraçar-se com seu pai; ele a empurra.)
ANTÔNIO.- Vinte e quatro horas. Isto é que é ser generoso. (Para ARNAUD.) Vamos, fiel amigo. Vinte e quatro horas.
(Grande silêncio. ANGÉLICA corre a abraçar CÂNDIDA, esta a repele, e ela lança-se nos braços de DONA CLARA, que a recebe com ternura, e choram ambas.)
Cena X
FIRMINO, DONA CLARA e ANGÉLICA.
FIRMINO.- Meu pobre tio, como está enganado! Como o monstro lhe soube maniatar as mãos e alucinar-lhe a razão!
DONA CLARA.- Firmino, ao menos desculpai-vos para comigo... Eu te amo tanto!... Acho um não-sei-quê de incompleto neste drama, vejo uma lacuna, um vácuo na marcha do processo de teu tio, uma precipitação que não posso definir! Que mão oculta preparou este enredo terrível e colocou teu tio numa posição tão estranha?!
ANGÉLICA.- A mão da hipocrisia, minha mãe, que por entre as trevas da noite sabe roubar o veneno das cobras para lançá-lo no coração da inocência. Mas tudo isto se desvanecerá e a verdade há de aparecer luminosa como o sol, pura como a virtude e... e talvez sem remédio para tanto mal. Quando o cadáver de Angélica lentamente fizer o último trânsito entre brandões e os cânticos dos sacerdotes, e o sino da torre com sua voz medonha escrever seu nome na lista dos mortos...
DONA CLARA.- Minha filha... Angélica, não me mates, que idéias são essas? Eu creio na tua virtude e cuido que tudo isto passará...
ANGÉLICA.- Passará, decerto, mas tarde. Do que serve a verdade sentada sobre um túmulo?! Uma lição tão pequena, no centro de uma família, não aproveita à humanidade. Os fatos estrondosos da história não corrigem os homens, quanto mais cenas na escuridão do recanto de uma casa.
FIRMINO.- Sim, minha querida tia, minha cara mãe. Tudo passará. O vento infernal que sublevou toda esta nuvem há de parar, e a verdade, a inocência, resplandecerão com todo o brilho de sua glória. Um grande filósofo disse que o tempo é médico tardio, mas cura radicalmente todas as moléstias. Arnaud é o gênio da devastação, é Satanás no seio dos homens. Deus não deixará impune semelhante atentado. Banharei o meu braço no seu sangue, e com o sangue desse miserável hei de lavar a mancha que intentou lançar-me sua perfídia.
Cena XI
FIRMINO, ADOLFO, DONA CLARA e CÂNDIDA.
ADOLFO.- Parabéns, parabéns, tudo vai a contento. Os eleitores são quase todos do nosso lado e o senhor doutor Firmino é o mais votado na freguesia!! Mas que é isto?! Que lágrimas são estas? Ah agora me lembra... É porque Arnaud saiu de casa e já lá se vai...
FIRMINO.- Como? Já saiu desta casa?...
ADOLFO.- E lá vai em passo de galope. Há muito que ele andava doido, e eu já sabia que era plano velho. Não tinha aqui nem mesmo roupa para muda. Tudo estava fora, e creio que sairá amanhã no paquete.
FIRMINO.- Não pode ser. Não tem passaporte, não foi anunciado, não pode fugir.
ADOLFO.- Com nome suposto, com passaporte falso. Há tantos meios... Por que, por que é essa fúria?!
FIRMINO.- Covarde! Hei de embarcar-me com ele, melhor, e logo que ponha pé em terra me vingarei. A um homem como eu um covarde, ainda que se vá esconder no inferno, nunca escapará. Para que lado foi ele?
ADOLFO.- Que intentas? Foi para baixo, pela rua do Cano.
FIRMINO.- Justiça do céu, valei-me...
(Pega no chapéu e sai. ANGÉLICA dá um gemido horrível e ADOLFO fica estupefato.)
FIM DO ATO IV